Carlos Roberto -  CRS Palestrante

A vida,  os sentimentos e impressões em prosa e verso

Textos


UM SER MUITO ESPECIAL

Dia 05 de maio, uma segunda feira normal para muita gente. Saí do trabalho para fazer um trajeto diferente e apesar do horário de pico, consegui em tempo razoável chegar às imediações da Avenida Paulista. Não via a hora de chegar à Maternidade Santa Joana. Quando lá cheguei, encontrei familiares e amigos de plantão, afinal de contas, minha filha Márcia iria dar à luz.

Daniel, o pai, estava ansioso, pois pretendia filmar o nascimento da criança e não era chamado para o centro de obstetrícia. Sai para comer alguma coisa numa lanchonete que fica nas proximidades e quando retornei, ele já havia descido e não voltou mais, sinal de que o nascimento estava para acontecer.

Assistíamos TV, conversávamos tentando disfarçar a nossa preocupação, até que a maçaneta do apartamento se abriu e o Daniel proferiu a esperada frase: ___”Meu filho nasceu...” e o que sucedeu a partir daí foram soluços  e choro de felicidade. Todos nos  abraçamos  e comemoramos ao lado do emocionado pai que apertava o play da filmadora para mostrar o primeiro choro do Lucca.

Adriana  havia saído com a Camila para comer algo na mesma lanchonete, mas quando estavam colocando a pizza sobre a mesa eu liguei e ela mandou embrulhar  a redonda  para viagem  e subiu  apressadamente para o apartamento.

Após recobrar a fala, Daniel passou a ligar para os parentes e amigos para dizer do nascimento seu filhinho, com o natural orgulho de quem conquista a paternidade. Algum tempo depois, a Márcia veio para o quarto e o nenê foi levado para o berçário, depois foi trazido para o quarto, para a euforia de todos.

Essa parte eu não acompanhei, pois havia deixado o carro num estacionamento que não era o do hospital, por isso, fechava às 22:00 horas.

No dia seguinte, estava indo para o restaurante como faço costumeiramente e conversava com um amigo sobre o meu netinho Lucca. Adriana, minha filha ligou dizendo que fora chamada urgentemente por Daniel, pois havia algo grave com o bebê. Eu já sabia que ele fora levado de madrugada para a UTI neonatal, mas era apenas para tomar soro com glicose para estabilizar a glicemia que estava um tanto baixa.

Meu coração disparou, senti um frio no peito, mas tive coragem de ligar para o Daniel. Ele me disse que a pediatra havia dito que estava desconfiada de que o nosso Lucca nascera com a “síndrome de down”. De início me senti como um pugilista que baixa a guarda e por distração leva um cruzado no queixo.

Me sentei à mesa, mas não tive como comer, pois os pensamentos cruzavam minha mente em todas as direções. Minha esposa, mais tarde me diria que a cena que mais cortou o seu coração foi deparar com o Daniel, nosso genro, deitado literalmente no chão, chorando convulsivamente, em razão da notícia recebida.

Quando alí cheguei, procurei encorajar a todos, mas por dentro talvez eu estava chorando mais que eles. Vi o olhar melancólico de Márcia, apenas pude abraçá-la e balbuciar algumas palavras de conforto.

À noite, pesquisei vários “sites” que tratam do assunto e, então, comecei a assimilar algumas coisas importantes. Ainda é preciso muita informação para que as pessoas compreendam o que é a “síndrome de down”. Primeiro lugar, ninguém espera uma criança com anomalias sejam elas quais forem. Todos esperam aquele bebê rechonchudo, o mais bonito do berçário. É o nenê ideal que permanece no imaginário dos pais e de todos os familiares e amigos. Descobri que precisava cuidar do sepultamento dessa criança imaginada e aceitar aquela que recebemos no seio de nossa família. Convencido disso passei a ver a situação com outros olhos e conseguí no sábado (10/05) ver finalmente o meu querido Lucca e tomá-lo em meus braços..

Ele recebeu alta da UTI e da Maternidade e como já havíamos programado a comemoração do aniversário do meu filho que trabalha em Angola e que não estará conosco na data de seu aniversário, resolvemos manter a comemoração apesar de estarmos todos um tanto tristes. Quando o celular tocou e Márcia me disse que a criança estava de alta e que estavam vindo para a festinha, fui tomado de uma alegria muito grande. 

A chegada do Lucca foi apoteótica, com direito às palmas e à disputa para ver quem pegava primeiro aquele "pacotinho" de gente. Não pude conter o choro ao contemplar pela primeira vez ao vivo e em cores, o meu segundo netinho.

Lucca está a cada dia mais lindo e o amor de toda a família é intenso e nesse ambiente de amor, ele terá todos os estímulos necessários para que possa ser uma criança como todas as outras. Me perdoe, caro leitor, mas hoje eu tive que compartilhar essa experiência que certamente poderá ajudar alguém como eu, ou seja, um avô especial.
Carlos Souza
Enviado por Carlos Souza em 21/05/2008
Alterado em 15/07/2008


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