Carlos Roberto -  CRS Palestrante

A vida,  os sentimentos e impressões em prosa e verso

Textos


MIGHTY_01 -

Tem certas coisas que preferia não ter que escrever. Já faz algum tempo que pela falta de tempo, inspiração e, ainda, por uma quadra sombria que eu e minha família enfrentamos, fiquei ausente da escrivaninha do Recanto das Letras.  Mas volto agora, pelo menos para desabafar aquilo que está corroendo minha alma que é a dor da saudade.

No dia 1º de maio de 2015, por volta das nove  meia da manhã o telefone de casa tocou e a notícia era muito triste: O Leonardo faleceu. Meu neto estava com 15 anos de idade. Era um garoto muito inteligente, que amava a vida e que colocou como tema do WhatsApp a frase: Eu acho o mundo bem empolgante!

Cresceu recebendo o amor dos pais, dos avós, dos tios e de todos os que o conheciam. Era dotado de uma alegria contagiante. 

Ele nasceu no início do terceiro milênio, em 08 de fevereiro de 2000.
Tinha excelente saúde e dificilmente apanhava um simples resfriado. Aos oito anos ele escreveu um EBook que foi editado e lançado no site do Amazon.  O livro é uma ficção infantil cujo título é: O Super Velocidade.

Na escola conseguia excelentes notas e conseguia manter uma bolsa que amenizava o valor da mensalidade que os pais pagavam.
Outra coisa que gostava muito era dos games tipo “Battlefield” e começou um canal no Youtube que contava com cerca de vinte mil inscritos  o que lhe rendia alguns dólares que eram pagos pelo Youtube mensalmente, proporcionais ao número de visualizações que seus vídeos recebia.

Meu filho, emocionado, fez um vídeo para postar no canal do Leonardo (Mighty_01) visando dar satisfação ao seu público formado por adolescentes. O vídeo já conta com mais de setecentas e cinquenta mil visualizações (01). Vários youtubers famosos acessaram o vídeo e souberam do sonho do Leonardo em receber a placa de 100 K (100 mil inscritos) e em três dias estavam chegando à marca de 200 mil inscritos no canal, o que renderá essa placa que ficará como uma relíquia para lembrar como o Leo era querido.

Morreu de que? É uma pergunta recorrente.  Num dia de sexta feira, abril de 2013, meu filho e minha nora voltaram de um ortopedista que fez um Raio X e uma tomografia que denunciaram algo além de um simples deslocamento no ombro esquerdo. Aquela situação nebulosa noa deixou tristes mas com esperança de que poderia ser algo benigno.

No Hospital A.C. Camargo, o prognóstico foi concordante com a desconfiança do ortopedista e o oncolosgista, de uma forma imprudente, diante do otimismo de minha nora quanto a possibilidade de tratar-se de um tumor benigno, assim falou: __Olha mãe, se eu tivesse cem fichas para apostas, eu apostaria noventa e nove de que se trata de um tumor maligno (sarcoma ósteo). O médico estava certo em sua suspeita. Era um osteossarcoma de alta malignidade.
Meses com quimioterapia, exames de sangue, imagem e, enfim, a realização de complexa cirurgia para extirpar o tumor alojado no úmero esquerdo. Numa das consultas com a ortopedista oncológica ela olhou diretamente para o Leonardo e falou que não poderia garantir a preservação do braço esquerdo dele.  Mas a cirurgia foi realizada sem a necessidade de amputar o braço. Introduziram duas próteses, uma substituindo o osso comprometido pelo câncer e outra para a  articulação do ombro.

Comemoramos a preservação, mas em fevereiro de 2014 os exames demonstraram nódulos pulmonares. Era a metástase decorrente do tumor primário. O Leo operou os dois pulmões, tomou medicamentos (quimio coadjuvante), mas começou a piorar gradativamente impondo um sofrimento enorme para ele e principalmente para os pais e demais familiares que nada podiam fazer a não ser tentar animá-lo e orar com ele e por ele rogando a misericórdia de Deus.

No dia trinta de abril, um dia de felicidade pois é dia de aniversário de um dos tios, o tio Lucas, meu irmão, tornou-se um dia cinzento, com nevoeiro intenso sobre as nossas vidas. O Leo sofreu um quadro hemorrágico, foi transportado às pressas para um Pronto Socorro onde recebeu atendimento mas acabou falecendo na manhã do dia 1º de maio de 2015.

Era filho único do meu filho Anderson que se encontra inconsolável. 

A dor é muito forte, ainda mais quando nos lembramos das atitudes do
Leonardo. Certo dia ele acabou de almoçar no restaurante em frente ao Hospital do Câncer e na saída falou para a minha filha que iria utilizar seu dinheiro para comprar algo para um garoto que estava mendigando ali na porta. Minha filha concordou e disse: ___Vamos encomendar um marmitex para o menino. O Leo sorriu e respondeu:____ Não tia!  Marmitex o pessoal deve dar todos os dias para ele, eu quero dar algo que ele não tem oportunidade de comer sempre. Foi até o caixa da lanchonete que fica no térreo, comprou duas barras grandes do melhor chocolate e foi silenciosamente dar ao garoto.

Outra ocasião, ele estava colecionando uns bonecos que uma grande empresa de fast food lançou e para conseguir os bonequinhos, sugeriu à mãe que comprassem dezoito lanches e distribuíssem os lanches para a criançada que ficava nas proximidades da feira para ganhar uns trocados com o auxílio às donas de casa.
A tristeza me assalta quando penso naquela vida que eu jamais pensei seria ceifada atropelando a ordem natural das coisas. Como avô, sofro duas vezes. Sofro a dor de ter perdido o neto e a dor do meu filho e da minha nora  que perderam o seu querido filho.

As centenas de mensagens que chegaram e continuam chegando tem confortado a gente mas nada repõe aquele sorriso tão lindo de volta ao nosso convívio.  Não deixamos de crer em Deus que levou o Leozinho para um lugar melhor, mas nos entristecemos por sermos humanos e não compreendermos os altos desígnios de Deus. Pranteando eu canto aquela música que o Jair Rodrigues cantava: Tristeza, por favor vá embora...

OS: Se quiser ver o vídeo do meu filho: https://youtu.be/Nkrkil5yrYA

Você  pode conhecer o canal do Leo no Youtube que é: Might_01 (Nada está sendo postado, mas o canal será mantido).

 

 
Carlos Souza
Enviado por Carlos Souza em 28/05/2015
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